Home/ Editorias/ Diversidade/ Minha história de vida: tenho orgulho de ser o que sou!

Minha história de vida: tenho orgulho de ser o que sou!

Descrição de imagem: Vinicius Schaefer, esta com uma blazer preto e uma blusa social azul , esta com os braços cruzados para fazer a pose e sorrindo para a foto. Fim da descrição de imagem.Da descoberta da surdez as barreiras encontradas nas instituições de ensino o primeiro artigo escrito por Vinicius Schaefer, é um relato para os leitores e seguidores do Pró Trabalhador, da história pessoal do colunista e quem sabe de muitos outros deficientes auditivos. No decorrer dos encontros Vinicius trará contribuições importantes para promoção da inclusão no mercado de trabalho. Confira o trabalho de Vinicius, também em áudio e vídeo em Libras no canal do Pró Trabalhador no Youtube. 
 
Publicado: 21-05-15
Foto: Edi Sousa e Nalva Lima Studio Artes
Colunista: Vinicius Schaefer fundador da Viva Acessibilidade, Administração Geral e Pós-graduado em LIBRAS, atualmente cursa Licenciatura em Matemática. Trabalhou em banco durante alguns anos no setor administrativo, foi professor de Libras em diversas universidades em São Paulo.
 
Meu nome é Vinícius Alves Schaefer e sou surdo. Gosto de viajar, ir ao cinema e participar de encontros com os amigos e parentes aos domingos como qualquer outra pessoa.  Sou formado em Administração, Pós-graduado em LIBRAS e atualmente curso Matemática. 
Gostaria de iniciar o meu relato falando sobre como a minha mãe descobriu que eu era surdo. Segundo ela, os primeiros sinais de que eu não ouvia, surgiram alguns dias após sair da maternidade e o meu irmão batia as portas do nosso quarto e eu permanecia indiferente.
 
Ao nascer, fiquei por mais dois dias na maternidade, porque tive icterícia- doença que deixa os bebês amarelados. Recebi banhos de luz e outros cuidados. 
No dia da minha alta, meus pais foram me buscar e ouviram dizer que o hospital havia sofrido uma pane no berçário, fomos para casa sem dar importância ao fato. Segundo a minha mãe, esse fato pode ter causado em mim a perda da audição, porém nada garante que isso ocorreu de fato, embora não existam surdos na nossa família!
Fui recebido com muito amor e carinho pelos meus pais e irmão (seis anos mais velho que eu). Devo ter dado muito trabalho, pois o meu irmão até então, era o bebê da casa e eu tirei o lugar dele, mas acho que isso é bobagem, sempre cabe mais um no coração dos pais e irmãos...
 
Com menos de dois anos fui para a Escolinha Infantil de ouvintes.  Não tive nenhum problema de me adaptar lá, pois todos em casa eram ouvintes e as crianças pequenas não tem preconceitos, nem praticam o Bulling. 
 
Brincava e participava de tudo, a sala tinha poucos alunos e a minha mãe, também professora, orientava a escola na medida do possível, quanto às dificuldades com a comunicação. 
 
Infelizmente a minha primeira fonoaudióloga não tinha Libras, alias poucas pessoas conheciam essa Língua. Permaneci nesta segunda escola até os sete anos, pois aí surgem os problemas para os surdos, por ocasião da sua alfabetização. Sendo a Libras a língua natural dos surdos e o Português, a sua segunda Língua, diferente do ouvinte que tem o Português como sua língua-mãe. 
 
Somados ao fato de que os professores não tinham a Libras e a escola não possuía interpretes, como eu não avançava na leitura e escrita, porque não tinham recurso visual e a Libras para auxiliar no entendimento das palavras, principalmente àquelas mais abstratas, a minha família foi em busca de outra alternativa pedagógica. 
Fui estudar em uma escola de deficientes auditivos (EMEDA- Escola Municipal de Ensino Deficiente Auditivo, hoje Escola Bilíngue para Surdos e paralelamente continuava na fono. Lá, aprendi a Língua Brasileira de Sinais. Permaneci na EMEDA até os nove anos e terminei a quarta série em uma escola do estado. 
 
Devido ao avanço da idade fiz o supletivo em curso de ouvintes, ali já estava com quase quatorze anos. Eu não tinha base para acompanhar uma suplência e foi muito complicado terminar o Ensino Fundamental. No Ensino Médio fui para um Colégio Estadual, na Vila Mariana, que tinha um trabalho de inclusão e recebia a maioria dos alunos surdos da EMEDA. 
 
Neste colégio tive um trabalho melhor de aprendizagem, já que a maioria dos professores recebeu cursos de Libras e a diretora era muito interessada em propiciar a inclusão de fato. 
 
Para os surdos a disciplina de português é muito complexa e a concordância verbal e nominal causa grande problema de entendimento, pois os surdos aprendem apenas as palavras soltas, se perdem nas frases com sentido. E assim fui caminhando com a ajuda de minha mãe e de outras pessoas que me davam aulas de reforço. 
Fiz também alguns cursos de informática para me preparar para o mercado de trabalho. Recebi o meu diploma de conclusão do ensino médio com muito orgulho e satisfação, afinal estava conseguindo o meu objetivo de um dia entrar numa faculdade. 
 
No primeiro ano da faculdade, foi muito difícil, pois não tinha intérprete, acredito que foi um dos principais motivos da minha dificuldade, acabei ficando em dependência de várias disciplinas. No entanto essa dificuldade foi sanada nos anos seguintes com a Lei nº10.436, que obriga as universidades a colocarem interpretes para os alunos surdos. 
 
Hoje sou formado e muito feliz no que faço, sei que não é fácil, principalmente quando se tem uma deficiência, mas espero que meu relato ajude outras pessoas a terem motivação para seguir em frente, desistir, jamais.
 
Na próxima coluna vamos refletir juntos: A inclusão no mercado de trabalho: quem são os deficientes?
Confira o trabalho de Vinicius, também em áudio e vídeo em Libras no canal do Pró Trabalhador no youtube